Por Guilherme Kalel: Jornalista e Editor
22/06/2026
O avanço dos golpes do falso pedágio digital no Brasil escancara uma realidade incômoda: no país, denunciar o crime não basta. Mesmo após veículos de imprensa, como a Visionpress, realizarem um trabalho minucioso de investigação e alerta público, o que se vê nas caixas de e-mail dos cidadãos não é o recuo dos criminosos, mas sim o aumento agressivo das abordagens, que chegam a passar de trinta mensagens diárias por usuário. Em vez de intimidar as redes de estelionato, a exposição pública do golpe parece ter servido de combustível, expondo a lentidão crônica e a ineficiência das autoridades brasileiras no combate ao crime cibernético.
É inaceitável que, em uma sociedade cada vez mais digital, onde movimentações financeiras e dados pessoais cruzam o país em frações de segundos, o aparato de segurança pública e o Judiciário continuem patinando na resposta a fraudes virtuais. A sensação de impunidade é palpável. Os golpistas utilizam contas bancárias de fachada, criam páginas falsas idênticas às das concessionárias e disparam milhões de e-mails diariamente sem enfrentar grandes barreiras. Enquanto o cidadão comum é obrigado a se hipervigiar para não perder as economias de uma vida em um clique, o Estado demonstra uma incapacidade estrutural de rastrear o caminho do dinheiro e punir os cabeças dessas operações.
A grande justificativa técnica costuma girar em torno da complexidade das investigações digitais, que envolvem a quebra de sigilo de IPs e o rastreamento de transações via Pix que mudam de conta instantaneamente. No entanto, essa lentidão não é mais justificável. Se o país foi capaz de modernizar seu sistema financeiro e digitalizar seus serviços públicos com eficiência exemplar, é um contrassenso que os mecanismos de repressão e investigação criminosa permaneçam analógicos ou sobrecarregados ao ponto da paralisia. Falta coordenação nacional, faltam delegacias especializadas com recursos adequados e, acima de tudo, falta agilidade política para tratar a segurança cibernética como prioridade de segurança nacional.
Permitir que um golpe cresça exponencialmente após ser amplamente denunciado é passar um recibo de impotência para a criminalidade. O prejuízo não é apenas financeiro para as milhares de vítimas que caem na armadilha da urgência psicológica criada pelos criminosos. O verdadeiro prejuízo é a erosão da confiança nas instituições e na própria infraestrutura tecnológica do país. Se o cidadão não pode confiar na segurança do ambiente digital e percebe que as autoridades pouco fazem além de registrar boletins de ocorrência que resultam em gavetas cheias, o pacto de proteção social falha. O combate ao crime cibernético precisa deixar de ser uma promessa de futuro e se tornar uma realidade imediata, antes que a internet brasileira vire terra de ninguém de forma definitiva.
Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor.
Publisher da Agência Visionpress.
MTB: 89344 / SP.
guilherme@visionpress.com.br
