Por Guilherme Kalel e Sofia Garcia
07/06/2026
A Raízen protocolou o maior acordo de recuperação extrajudicial da história do Brasil, envolvendo uma reestruturação de dívidas que soma R$ 64,7 bilhões. O plano foi apresentado oficialmente à Terceira Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo e conta com expressivo apoio dos envolvidos, alcançando a adesão de 75,45% dos credores. A aprovação abrange todas as frentes de financiamento da companhia, incluindo detentores de títulos locais, títulos emitidos no mercado internacional e instituições bancárias.
O desenho da reestruturação financeira prevê medidas profundas para restabelecer a solidez da empresa, combinando injeção de novos recursos, conversão de passivos em participação societária e venda de ativos estratégicos. Entre as principais ações anunciadas, destaca-se o aporte de R$ 3,5 bilhões que será realizado pela petroleira multinacional Shell. Existe ainda a previsão de uma captação adicional de até R$ 500 milhões via Aguassanta Participações, holding ligada à família do empresário Rubens Ometto, que controla a Cosan.
Como parte do processo de quitação e alongamento dos prazos, o plano estabelece que 45% do montante total da dívida reestruturada será convertido diretamente em ações da Raízen. Os 55% restantes do passivo passarão por um processo de refinanciamento, substituição ou aditamento por meio da emissão de novos títulos de dívida, cujos pagamentos poderão ocorrer nas moedas originais dos contratos vigentes, como reais, dólares ou euros.
A estratégia de recuperação da Raízen também engloba um plano agressivo de desinvestimentos e reorganizações societárias para otimizar o caixa e focar em operações mais rentáveis. Um passo decisivo nessa direção foi a venda de ativos e operações da companhia localizados na Argentina para o grupo Mercuria, um negócio fechado pelo valor aproximado de 1,4 bilhão de dólares, o equivalente a mais de 7 bilhões de reais. De acordo com a empresa, essa venda está alinhada à política de simplificação da estrutura operacional e alocação disciplinada de capital.
Mudanças profundas na governança corporativa também fazem parte do pacote negociado para viabilizar o acordo. Os credores que apoiaram o plano assumirão maior peso político na administração da companhia. O conselho de administração da Raízen passará a ser composto por 7 integrantes, sendo que 4 assentos serão indicados diretamente pelos credores apoiadores e 3 serão definidos pelo acionista controlador. Além disso, foram instituídas regras específicas para regular a permanência e os direitos de uso da marca Shell durante a vigência do contrato de licença.
Os próximos passos do cronograma estipulado pela companhia envolvem marcos temporais para a consolidação de todas as etapas operacionais e societárias. A expectativa da administração e dos assessores financeiros envolvidos nas negociações é que o fechamento definitivo do processo ocorra até o dia 31 de março de 2027, seguido por uma segregação completa das unidades de negócios desenhadas na reestruturação até o final de dezembro do mesmo ano.
