Por Guilherme Kalel: Jornalista e Editor
12/06/2026
No debate público contemporâneo, poucas palavras ganharam tanto destaque e peso moral quanto “inclusão”. O termo frequentemente evoca imagens de transformações físicas e arquitetônicas: a instalação de uma rampa de acesso, a aplicação do piso tátil nas calçadas, a reserva de vagas em estacionamentos ou a presença de elevadores adaptados. Embora essas conquistas estruturais sejam fundamentais e precisem ser defendidas e ampliadas continuamente, elas representam apenas o ponto de partida. A verdadeira inclusão não termina na porta de entrada; ela começa ali. O erro crasso da nossa sociedade tem sido confundir o ato de permitir que alguém entre em um espaço com a garantia de que essa pessoa possa, de fato, participar, compreender e decidir de forma autônoma.
Essa reflexão ganha urgência e profundidade quando partimos da experiência de quem convive com a deficiência visual desde o nascimento. Ao longo de uma vida inteira superando obstáculos, aprende-se que a inclusão vai muito além daquilo que os olhos conseguem enxergar. A essência da cidadania reside na capacidade de participar da vida social em igualdade de condições, e não existe autonomia real quando o acesso ao conhecimento é tratado como um elemento secundário. A informação é a ferramenta mais democrática já criada, a engrenagem que permite ao indivíduo estudar, compreender seus direitos, acompanhar as transformações do mundo e construir sua própria trajetória profissional. Sem ela, qualquer tentativa de integração torna-se vazia.
O grande paradoxo dos nossos tempos é que, enquanto os discursos sobre diversidade e acessibilidade ganham as redes sociais e as campanhas institucionais, barreiras invisíveis são criadas para limitar a circulação da notícia e do saber. Em plataformas como Instagram, Facebook, WhatsApp e Telegram, a lógica da comunicação tem sido distorcida. O que deveria existir para conectar pessoas passa, muitas vezes, a isolá-las. É um cenário inquietante: anúncios, propagandas e interesses comerciais circulam livremente, atravessando bairros e comunidades para alcançar potenciais consumidores. No entanto, a informação de interesse público encontra obstáculos. Se uma oferta comercial tem o poder e a liberdade de chegar a toda a cidade, qual é o sentido de impor limites ao conhecimento que molda a vida do cidadão?
É preciso deixar claro que quando uma notícia é impedida de circular, o prejuízo não é meramente corporativo. O problema não está no jornal que deixa de ser lido, mas naquilo que é retirado do indivíduo. É o morador que perde a chance de acompanhar um assunto crucial de sua região, o estudante que deixa de conhecer uma oportunidade de crescimento e o cidadão comum que fica privado de dados essenciais para tomar decisões informadas sobre sua própria vida.
Diante disso, uma verdade fundamental precisa ser cravada: a informação não pertence a este ou aquele grupo, a um jornal específico ou a um jornalista. A informação pertence, por direito inalienável, a todas as pessoas que têm o direito de recebê-la, independentemente de sua classe social, de possuírem uma deficiência ou de não possuírem deficiência. Ninguém, nenhuma plataforma e nenhum algoritmo deveria deter o poder discricionário de decidir quais fatos podem ou não chegar ao conhecimento da população.
Para que a inclusão deixe de ser um slogan bonito e se torne uma realidade palpável, é urgente uma mudança profunda de posicionamento na mentalidade das pessoas. Devemos parar de enxergar a acessibilidade apenas sob a ótica do concreto e do cimento, e passar a entendê-la sob a ótica do intelecto e do direito ao saber. Uma pessoa sem acesso à informação não participa plenamente da sociedade; ela se torna dependente daquilo que os outros escolhem lhe mostrar. Convidar alguém para fazer parte do mundo, mas mantê-lo no escuro sobre o que acontece nele, não é inclusão. É, na mais pura essência, uma forma velada e cruel de exclusão.
Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor.
Publlisher da Agência Visionpress.
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