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Marisa tem prejuízo expressivo no trimestre e Auditoria faz alerta sobre capacidade de funcionamento da marca

Por Amanda Heimann

19/05/2026

A Lojas Marisa encerrou o primeiro trimestre de 2026 enfrentando um cenário de forte pressão financeira, o que motivou um aviso formal de seus auditores independentes, a BDO RCS Auditores Independentes. No relatório de revisão, a firma incluiu um parágrafo de ênfase expressando preocupação com a continuidade operacional da varejista de moda feminina.

O sinal de alerta foi acionado após a companhia reportar um prejuízo líquido de R$ 95,8 milhões no período. O principal fator de risco apontado é o capital de giro negativo estrutural. Nas demonstrações individuais da empresa, o passivo circulante superou o ativo circulante em R$ 446,4 milhões, enquanto nas demonstrações consolidadas essa diferença ficou em R$ 441,3 milhões. Esse cenário indica que as obrigações financeiras de curto prazo da companhia ultrapassam seus recursos disponíveis imediatos em quase meio bilhão de Reais.

De acordo com o parecer da auditoria, tais indicadores revelam uma incerteza relevante que coloca em dúvida a capacidade de a empresa manter o andamento normal de suas atividades econômicas sem novas fontes de suporte.

A deterioração dos indicadores de liquidez da Marisa ficou evidente no avanço das obrigações de curto prazo. O passivo circulante consolidado atingiu R$ 1,01 bilhão no fim do trimestre, acima dos R$ 925,9 milhões registrados em dezembro de 2025. Esse crescimento foi impulsionado principalmente por uma tomada adicional de R$ 250 milhões em empréstimos de curto prazo e por uma elevação de R$ 88,5 milhões nas operações de risco sacado com fornecedores.

Simultaneamente, os recursos em caixa consolidado sofreram uma redução drástica, despencando de R$ 48 milhões para R$ 10,6 milhões. O patrimônio líquido também encolheu 43% em apenas 3 meses, passando de R$ 224,2 milhões para R$ 128,8 milhões, corroído pelo acúmulo de prejuízos históricos que já totalizam R$ 2,19 bilhões.

O endividamento líquido da empresa subiu de R$ 277,3 milhões para R$ 336,8 milhões, o que elevou a relação entre a dívida líquida e o Ebitda de 0,8 vez para 1,3 vez no trimestre. Em resposta aos resultados, os papéis da companhia na bolsa operaram em forte queda de 8,75%, fechando cotados a R$ 0,73.

Com o caixa estrangulado, a auditoria apontou divergências sobre a necessidade de constituir provisões para contingências fiscais ligadas à controlada indireta M Serviços. A administração da varejista classifica essas perdas apenas como possíveis, mas a BDO sustenta que elas deveriam ser provisionadas.

Se esse ajuste contábil de R$ 210,8 milhões fosse aplicado, o patrimônio líquido da Marisa seria zerado ou se tornaria negativo. A questão envolve uma disputa regulatória com a Comissão de Valores Mobiliários, que chegou a determinar o refazimento dos balanços de 2022 a 2025, decisão que se encontra suspensa devido a um efeito suspensivo concedido à empresa.

Apesar do cenário adverso, a diretoria da Marisa defende que está implementando medidas firmes de reestruturação para recuperar o equilíbrio financeiro. O relatório da administração destacou avanços operacionais importantes, como a redução de 17,2% nas despesas gerais e administrativas e um crescimento de 60,6% no Ebitda recorrente sob o conceito de mesmas lojas, alcançando R$ 20,4 milhões. A receita líquida desse mesmo grupo de lojas permaneceu praticamente estável, com uma variação negativa de apenas 0,7%.

Embora os dados apontem para uma maior disciplina de custos e ganhos internos de eficiência, o resultado final consolidado do trimestre acabou prejudicado na comparação anual porque o balanço do primeiro trimestre de 2025 havia sido beneficiado de forma extraordinária por créditos tributários não recorrentes. Como parte da estratégia continuada de enxugamento estrutural, a varejista também deu sequência ao fechamento de unidades de menor rentabilidade.