Por Guilherme Kalel: Jornalista e Editor
11/05/2026
O lançamento da Pilili, a nova mascote oficial da urna eletrônica apresentada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na última segunda-feira, 4 de maio, trouxe à tona um debate que vai muito além do design gráfico ou do som emitido pelo equipamento. O episódio evidencia como as estratégias de marketing institucional no Brasil sofrem de um descolamento crônico da realidade e do sentimento popular, muitas vezes beirando o infantilismo em temas de alta complexidade política.
A escolha do nome Pilili, segundo o tribunal, busca mimetizar o barulho da confirmação do voto. No entanto, em um ambiente digital altamente polarizado e marcado pelo cinismo, a recepção foi imediata: o nome virou alvo de piadas que o associam ao personagem Cebolinha, que troca o R pelo L, sugerindo uma incapacidade de pronunciar palavras de forma séria. Mas o problema ganha contornos de crise de imagem quando o nome é colocado lado a lado com um dos episódios mais constrangedores da história recente das investigações brasileiras: o caso da peleleca.
Para entender por que a Pilili está sendo usada para ridicularizar o país, é preciso recordar os diálogos extraídos pela Polícia Federal do celular do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Em relatórios enviados à CPMI do INSS, a PF detalhou conversas de cunho íntimo entre Vorcaro e sua então namorada. Nesses diálogos, o termo peleleca era utilizado de forma infantilizada e repetitiva pelo casal para se referir a órgãos íntimos, em um contexto que misturava conversas amorosas com relatos sobre influências políticas em Brasília.
O vazamento dessas mensagens transformou um termo chulo e infantil em um símbolo da falta de liturgia e da promiscuidade entre o poder econômico e o ambiente político. Quando o TSE, poucos meses após esse escândalo, lança uma mascote chamada Pilili, a conexão no imaginário popular é instantânea. O marketing governamental, ao ignorar o repertório de memes e o contexto de escândalo que já habitava a mente do brasileiro, acaba por servir um prato cheio para a desmoralização das instituições.
O marketing institucional no Brasil precisa entender que a confiança não se constrói com bonecos sem voz que fazem gestos lúdicos, especialmente quando o sistema que eles representam é alvo de intensos questionamentos, sejam eles justos ou não. Ao investir milhões em uma figura como a Pilili, o Estado brasileiro comunica uma espécie de subestimativa da inteligência do eleitor.
Tratar temas sérios, como a segurança das urnas e o processo democrático, com nomes que remetem a apelidos íntimos de investigados pela PF ou a personagens de desenho animado, gera um efeito reverso: em vez de aproximar, cria um distanciamento baseado no deboche. O Brasil vive hoje o que especialistas chamam de marketing do ridículo, onde a tentativa de ser popular acaba soando como uma falta de seriedade institucional.
Se o objetivo era fortalecer a democracia, a estratégia de marketing falhou ao não prever que, no Brasil das redes sociais, um nome mal planejado não é apenas um detalhe, é uma arma para quem deseja ridicularizar o sistema. A lição que fica é que, enquanto o marketing público não abandonar a linguagem da peleleca e da Pilili para adotar uma comunicação que respeite a maturidade do cidadão, o país continuará sendo palco de uma comédia de erros paga com dinheiro público.
Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor.
Editor Responsável da Agência Visionpress e do Jornal RS Connect.
Autor da Coluna Kalelvision.
MTB: 89344 / SP.
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