Por Lívia Lacerda
08/05/2026
A política brasileira costuma ser descrita como um eterno retorno, mas os desdobramentos da Operação Compliance Zero trazem novos ingredientes que podem alterar drasticamente a receita das próximas eleições presidenciais. O avanço da Polícia Federal sobre figuras centrais do Centrão, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), não é apenas mais um capítulo de investigação sobre corrupção; é um movimento tectônico que atinge o coração da estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro e, por extensão, de todo o campo oposicionista.
A análise fria dos fatos revela que a proximidade entre o senador Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira, outrora vista como o trunfo necessário para garantir tempo de TV e capilaridade municipal, tornou-se um passivo tóxico. Em um ano eleitoral, a imagem de um candidato é o seu maior ativo. Quando essa imagem é ligada a investigações que envolvem mesadas vultosas e relações escusas com instituições financeiras como o Banco Master, o discurso de renovação e moralidade, que ainda ressoa em parte do eleitorado de direita, sofre um abalo de credibilidade.
O que se vê agora é um cenário de “perde-perde” para a oposição pragmática. Se Flávio Bolsonaro mantiver o apoio a Nogueira, ele carrega para dentro de sua campanha o cheiro de naftalina da velha política e as suspeitas de corrupção que o PT certamente usará como munição. Se ele se afastar, perde a estrutura partidária gigantesca do PP e do União Brasil, ficando isolado em uma bolha ideológica que, embora barulhenta, pode não ser suficiente para vencer uma eleição decidida por uma margem estreita de eleitores de centro.
É nesse pequeno grupo de 4% a 5% de eleitores indecisos que a eleição será decidida. Para esse cidadão, que não é nem petista nem bolsonarista de carteirinha, o escândalo do Banco Master serve como um lembrete incômodo de que os vícios do sistema político brasileiro transcendem ideologias. A ironia reside no fato de que, enquanto o governo Lula também enfrenta desgastes por ligações com o mesmo banco através de figuras do Judiciário, a queda de Ciro Nogueira oferece ao Planalto um escudo inesperado: a narrativa de que “são todos iguais” ou, pior, de que a corrupção no entorno bolsonarista é mais direta e palpável.
A reação cautelosa e quase muda de Flávio Bolsonaro diante da operação da PF é o sintoma mais claro do pânico que se instalou nos bastidores. Ao não defender o aliado de primeira hora, o senador admite o risco. Ao não condená-lo com veemência, demonstra dependência.
Em suma, a entrada da Polícia Federal no circuito do Centrão e sua conexão com o clã Bolsonaro em um momento tão sensível sinaliza que a política nacional entrou em uma fase de alta instabilidade. Para Flávio Bolsonaro, o caminho até a urna tornou-se um campo minado onde cada aliança estratégica pode ser, simultaneamente, o combustível para sua vitória ou o estopim de sua derrota. O eleitor de centro, que assiste a tudo isso com crescente ceticismo, dificilmente ignorará que o “novo” parece cada vez mais comprometido com as velhas e perigosas práticas de sempre.
Lívia Lacerda é formada em Direito e Jornalista de política.
Em sua Coluna analisa o cenário atual e os bastidores dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário., Fora de Posts
