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Análise: Os recados de senadores a Lula; Nem emendas foram suficientes para garantir Messias no STF

Por Guilherme Kalel: Jornalista e Editor

29/04/2026

O revés sofrido pelo governo federal no Senado, com a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, transcende a simples perda de uma indicação jurídica. Na prática, o que se viu foi a imposição de uma das piores e mais simbólicas derrotas políticas da atual gestão Lula, um evento que não ocorria há mais de um século e que expõe vísceras expostas da articulação política do Palácio do Planalto.

O recado enviado pelos senadores é nítido: a base governista na Casa Alta é frágil e a articulação política é deficiente. O fato de o governo ter liberado cerca de R$ 12 bilhões em emendas parlamentares às vésperas da votação e, ainda assim, não ter conseguido garantir o quórum necessário, demonstra que o poder de barganha financeira já não é mais o único motor das decisões legislativas. Existe um hiato de diálogo e confiança que o dinheiro público, sozinho, não foi capaz de preencher desta vez.

A derrota de Messias era, de certa forma, previsível para quem acompanha os bastidores de Brasília. O indicado nunca gozou do apoio ou da simpatia do presidente do Senado, peça-chave da Casa, o senador Davi Alcolumbre. O controle de Alcolumbre sobre a pauta e sobre as vontades de seus pares é um fator que o governo parece ter subestimado. A preferência declarada de Alcolumbre por Rodrigo Pacheco para o cargo no STF já era um sinal amarelo que foi ignorado pelo Executivo.

Para o governo Lula, isso significa que cada nova indicação ou projeto de lei de grande impacto terá que passar por um pedágio político muito mais caro e complexo. O Senado demonstrou que tem autonomia e que não hesitará em impor derrotas históricas se sentir que seus interesses ou lideranças não estão sendo devidamente respeitados na mesa de negociações.

Em suma, a rejeição de Jorge Messias é um divisor de águas. Ela encerra o período de “lua de mel” ou de complacência legislativa e obriga o Palácio do Planalto a rever urgentemente sua estratégia de coalizão. Sem uma articulação real, que vá além da liberação de verbas e que inclua o respeito às lideranças consolidadas do Congresso, o governo corre o risco de ver sua agenda paralisada ou refém de um Legislativo cada vez mais empoderado e hostil.

Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor.
Editor Responsável da Agência Visionpress e do Jornal RS Connect.
MTB: 89344 / SP.
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