Por Guilherme Kalel, Amanda Heimann e Tayla Vieira
Do Orconvision
São Paulo e Brasília 29/03/2026
O que começou como uma promessa de “acerto de contas” com milhões de aposentados lesados terminou em frustração na madrugada do sábado, 28 de março. A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigava fraudes bilionárias em descontos indevidos de associações e sindicatos no INSS encerrou seus trabalhos sem aprovar o relatório final, consolidando o desfecho que parlamentares da oposição e entidades de classe classificaram como o “fim em pizza”.
O relator da comissão, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), apresentou um texto robusto de mais de 4.000 páginas, resultado de oito meses de investigação. O documento pedia o indiciamento de 216 pessoas, incluindo figuras de peso político, empresários e operadores financeiros.
Entre os nomes sugeridos para indiciamento estava o de Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), filho do presidente da República, sob a alegação de elos com os operadores do esquema. A inclusão de nomes ligados ao Planalto foi o estopim para que a base governista se articulasse para derrubar o texto. Por 19 votos a 12, o relatório foi rejeitado, impedindo que as conclusões fossem encaminhadas oficialmente ao Ministério Público.
A CPMI focou na chamada “farra dos descontos associativos”, um esquema que, segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), pode ter causado um prejuízo de R$ 6,3 bilhões aos segurados.
Entidades de fachada (muitas sem sede ou funcionários) firmavam acordos de cooperação técnica com o INSS.
Utilizando dados vazados, essas associações inseriam mensalidades diretamente na folha de pagamento de aposentados sem qualquer autorização.
Os valores eram pulverizados em empresas de consultoria e até pizzarias para ocultar a origem ilícita.
O encerramento abrupto também teve influência direta do Supremo Tribunal Federal. Na quinta-feira (26), por 8 votos a 2, o plenário do STF derrubou uma liminar que permitia a prorrogação da comissão. Sem mais prazo regimental, os parlamentares tiveram que votar o relatório às pressas, em uma sessão que durou mais de 16 horas e terminou sob gritos de “blindagem” e “impunidade”.
Com a rejeição do relatório, a CPMI deixa de produzir um documento oficial de acusação. No entanto, o legado da investigação não é nulo.
As provas colhidas pela Polícia Federal e CGU continuam em investigações criminais independentes.
O escândalo acelerou a aprovação do PL 1.546/2024, que proíbe descontos associativos em aposentadorias, mesmo com autorização, para estancar o ralo financeiro.
O INSS foi obrigado a facilitar a contestação de descontos via aplicativo “Meu INSS”.
“Pizza eu como em casa. Faço questão de mostrar à sociedade a diferença entre quem trabalha sério e quem trabalha blindando bandido”, desabafou o relator Alfredo Gaspar após a derrota.
