Por Guilherme Kalel: Jornalista e Editor
01/03/2026
Talvez em meus 18 anos de carreira como Jornalista, nunca tenha escrito um artigo que mexeu tanto comigo como este, em se tratar deste tema.
Já escrevi por indignação, por luto, por dor, por vontade de mudar cenários, por apresentação de denúncias.
Nada disso porém, teve pessoalmente para mim, os impactos que este teve ou terá. E explico porque.
Há 2 anos venho batendo numa tecla real e dura no Brasil.
Em um país de 6,5 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência visual, 650 mil destas com deficiência visual total, ou seja, que nada enxergam. Como eu.
Destas, 30% das pessoas neste grupo sofrem algum tipo de abuso cometido por parte da família.
Abusos que podem ser físicos, com agressões ou estupro, psicológicos, financeiro.
São diversas e diferentes formas de abusar, quer seja por superproteção, quer seja por maldade pura. O fato é que estes abusos não deveriam existir.
O Brasil possui a Lei Brasileira de Inclusão, número 13146, que deveria garantir direitos das pessoas com deficiência, e os deficientes visuais estão claro, inclusos nela.
Deveria garantir, porque de fato a prática é muito diferente da teoria, o que acontece, é diferente do que está no papel.
Em 1º de março, a Agência Visionpress, de qual faço parte como um dos diretores responsáveis, inicia a publicação de uma série de matérias denominada “Direitos Violados”.
O objetivo é denunciar uma série de violações ocorridas com pessoas com deficiência visual no Brasil e com isso, conscientizar pessoas e autoridades dessa realidade distorcida e cruel, presente na vida dessas pessoas e que não deveria ser assim.
Dentro desta série, abordamos o papel dos Direitos Humanos, dos Serviços em Referencia a Assistência Social, do Conselho Tutelar e de qualquer outra autoridade, que deveria em tese, impedir que tais abusos ocorressem, mas que não fazem nada.
No Brasil, Direitos humanos defendem apenas os direitos dos manos.
E quem realmente precisa fica abandonado no sistema.
A Assistência Social não existe, ela é uma fraude. Apesar de haver poucas pessoas dentro do sistema que valem apena e que fazem seu trabalho com amor e dedicação.
Mas que infelizmente sozinhas não podem mudar o mundo.
Quando os casos de abuso envolvem pessoas com deficiência visual e chegam a essas linhas de atuação, não atuam.
Assistentes sociais e conselheiros tutelares preferem sentar em suas cadeiras e deixar a coisa rolar.
Definem que esse tipo de situação ocorre por conflito familiar, entre o deficiente e seus parentes, e que isto, deve ser resolvido internamente, sem interferência desses serviços de referencia.
Se você é deficiente visual, mora no Brasil e faz parte dos 30% daqueles que sofrem algum tipo de abuso familiar e está lendo este agora.
Uma constatação, o Serviço Social não te quer batendo na sua porta, e se for, a fecharão na sua cara.
Apesar de existirem N números para denunciar N coisas no Brasil, e do governo fazer bilionárias propagandas focando como é maravilhosa sua assistência, tudo não passa de marketing.
Quem precisa de verdade ou quem já foi a um desses serviços sabem.
Profissionais que na maioria das vezes não querem ajudar, preferem ser omissos, integram esse cenário caótico.
Quem sofre são as pessoas com deficiência visual, que esperam, pedem desesperadamente socorro, sem quem possam as acolher de verdade.
Acompanhei muitos casos na vida de Jornalista, de pessoas com deficiência visual, que tiveram abusos registrados e denunciados.
Muitos que não deram em nada e muitos que eram tão absurdos e surreais, que pareciam estar num livro de ficção.
Mas que infelizmente leitores, são nossa mais pura realidade.
Entrando dentro de 90% das instituições para deficientes visuais do Brasil hoje, vemos pessoas inertes, que querem mostrar apenas o lado bonito da deficiência.
Aquele que se supera sendo um bom jogador ou praticante de alguma modalidade paralimpica de esporte.
Aquele que conseguiu mesmo com as dificuldades da falta da visão, se formar na faculdade e ser exemplo.
Enquanto quem sofre, fica ali escanteado.
Mostrar o combate a abusos, entrar em conflito com as famílias, oferecer acolhimento, não é interessante para essas instituições. Não dá prestígio ou ganhos políticos.
Por falar em política, neste ano tem eleição.
Espero que as pessoas que votam, possam pensar duas vezes antes de depositar seu voto na urna, e entendam a necessidade de mudanças nesse país.
Se queremos mudar algo de fato, isso passa pelas escolhas políticas que realizamos. E quem podemos cobrar posteriormente ao nos representar.
Por fim, a análise de hoje se encerra, com a constatação que pouco se avança o país no sentido de apoiar e acolher pessoas comd eficiência visual.
O fim de institutos que funcionavam como casalar, para receber deficientes visuais, foi apenas mais um tiro no pé do governo.
Que não inclui, e sim exclui as pessoas de fato.
Continuaremos daqui, acompanhando cada passo e buscando encontrar alternativas, afinal o que está acontecendo hoje não é aceitável e de jeito nem um pode continuar.
Abusos contra as pessoas com deficiência visual não podem ser tolerados, isso de alguma forma tem que acabar.
Para conhecer a série “Direitos Violados”, e acompanhar suas reportagens, leiam a Revista Visão Essencial ou vejam no site do Visionpress de forma completa em: Direitos Violados
Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor.
Editor Responsável da Agência Visionpress e do Jornal RS Connect.
MTB: 89344 / SP.
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