Por Lívia Lacerda
05/05/2026
A estratégia econômica do governo federal acaba de ganhar um novo capítulo com o lançamento do Novo Desenrola Brasil. Ao assinar a medida provisória em maio de 2026, exatamente 6 meses antes das eleições de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não apenas propõe uma ferramenta de alívio financeiro, mas estabelece uma jogada política de precisão cirúrgica.
O que se pretende colher com esse movimento vai muito além da simples redução dos índices de inadimplência. Existe uma percepção clara dentro do Palácio do Planalto de que, embora indicadores macroeconômicos como o PIB e o desemprego apresentem números positivos, o sentimento de bem-estar ainda não chegou à mesa do brasileiro. O endividamento é o muro que impede o cidadão de perceber a melhora na economia. Ao tentar derrubar esse muro agora, Lula busca transformar gratidão em votos.
A abrangência do programa é um termômetro das carências eleitorais do governo. O foco em estudantes do Fies, por exemplo, revela uma tentativa de reconectar com o eleitor jovem, uma parcela da população que tem demonstrado distanciamento da esquerda e maior permeabilidade a discursos da oposição. Da mesma forma, o Desenrola Rural e o foco em microempreendedores tentam suavizar a resistência histórica de setores produtivos que costumam ver o PT com desconfiança.
Do ponto de vista prático, as condições oferecidas — como descontos de até 90%, juros limitados a 1,99% ao mês e o uso inovador do saldo do FGTS — são iscas potentes. O governo quer que o eleitor chegue à urna em outubro com o nome limpo e, mais importante, com a sensação de que recuperou seu poder de consumo. É a velha tática de girar a roda da economia para aquecer o humor do votante.
Contudo, o sucesso dessa colheita depende da execução. Se o programa não atingir rapidamente a capilaridade necessária ou se os bancos impuserem travas burocráticas, a medida pode ser vista apenas como uma promessa eleitoreira de curto prazo. Além disso, ao vincular a renegociação de dívidas a restrições como a proibição de apostas em bets, o governo tenta imprimir um selo de responsabilidade fiscal e social, mas corre o risco de ser interpretado como paternalista por alguns setores.
Em suma, o Novo Desenrola é a grande aposta de Lula para 2026. O objetivo é limpar o nome de milhões de brasileiros e, no processo, limpar o caminho para vitórias políticas importantes. Se o eleitor vai retribuir o alívio financeiro com apoio nas urnas, é o que as pesquisas e os resultados de outubro dirão. Por ora, o que se vê é um governo que entendeu que, para ganhar o coração do brasileiro, o caminho mais curto passa obrigatoriamente pelo bolso.
Lívia Lacerda é formada em Direito e Jornalista de política.
Em sua Coluna analisa o cenário atual e os bastidores dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário., Fora de Posts
