Por Guilherme Kalel
Do Orconvision
29/03/2026
Num paralelo com o futebol, o Brasil parece ter virado um Flaflu infinito, onde quem perde somos nós. Sabe aquela briga de família no grupo do WhatsApp que terminou em bloqueio? Ou aquele churrasco que azedou porque alguém resolveu falar de Brasília? Pois é. O Brasil virou um grande estádio dividido, onde o jogo não acaba nunca e, o pior, ninguém está jogando bola — estamos apenas nos xingando na arquibancada.
A polarização no Brasil deixou de ser política para virar religião. Ou você é “time A” ou é “time B”. Se você concorda com um ponto do lado de lá, já é chamado de traidor. Se critica um erro do lado de cá, virou inimigo. E sabe quem ganha com esse racha? Ninguém que acorde às seis da manhã para pegar ônibus.
O que mais assusta não é só a divisão, é o desinteresse generalizado em sair dela. Virou confortável odiar. É mais fácil repetir o bordão que o político de estimação soltou no Twitter (ou no X, que seja) do que parar para ler um projeto de lei. O brasileiro médio parece ter desistido de pensar com a própria cabeça para virar “torcedor” de figuras que, na hora do jantar, estão muito provavelmente brindando juntas enquanto a gente se atraca por migalhas.
A verdade dói: a gente se viciou na briga. O algoritmo das redes sociais entrega o caos que a gente quer consumir, e a gente engole tudo sem mastigar. Fugir disso dá trabalho. Exige admitir que o “nosso lado” erra e que o “outro lado” pode ter uma ideia aproveitável. E, convenhamos, o ego do brasileiro não está pronto para essa conversa.
Enquanto a gente discute se a cor da gravata do ministro é um sinal comunista ou fascista, o país patina. O desenvolvimento não vem com gritaria.
Educação continua sendo um plano de governo (passageiro) e não um plano de Estado (permanente).
Na economia, o investidor olha para esse hospício e pensa duas vezes antes dicolocar dinheiro aqui.
A Saúde, vira moeda de troca em vez de prioridade técnica.
Um país polarizado é um país que não planeja o futuro porque está ocupado demais tentando destruir o presente do adversário. A gente não constrói pontes, a gente cava trincheiras. E, dentro de uma trincheira, a única coisa que você vê é terra e o inimigo à frente. Você não vê o horizonte.
A polarização é a cortina de fumaça perfeita para a incompetência. Enquanto o povo se degladia para defender político como se fosse parente, os problemas reais — o preço do arroz, a falta de segurança, o saneamento que não chega — ficam em segundo plano.
O desenvolvimento do Brasil só vai engrenar quando a gente parar de perguntar “de quem você é?” e começar a perguntar “o que você vai fazer?”. Até lá, continuaremos sendo o país do futuro que nunca chega, porque estamos presos em um passado de mágoas e em um presente de intolerância.
É hora de descer do palanque e voltar para a realidade. O Brasil é grande demais para caber em dois cercadinhos.
E em ano eleitoral é fundamental que façamos essa reflexão. Mudar de vez, ou apostar de novo no mais do mesmo?
Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor.
Editor Responsável da Agência Visionpress.
MTB: 89344 / SP.
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